“Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar…” Siba.
O mês de agosto começou com a Oficina Abstrato em Madeira que foi desenvolvida para as unidades do SESCSP, e a unidade da cidade de Jundiaí, localizada há 50 minutos de distância da capital de São Paulo foi a unidade que recebeu nossa proposta e foi onde realizamos esta vivência com o artista e amigo Viny Nere.
Os encontros ocorreram no Espaço de Tecnologias e Artes – ETA – aos sábados do mês de agosto, ao total foram 5 encontros com duração de 3 horas cada vivência. O objetivo da oficina foi apresentar uma noção básica sobre a arte abstrata, assim como sobre a América Latina, sobre as formas geométricas e sobre o tempo, sim sobre o “tempo” e fazer com que ele seja leve e amigo e não um vilão para se fazer as coisas na correria. De fato foi um grande desafio tratar sobre o assunto do tempo, mas através da arte e da criação manual e mental conseguimos apresentar outras maneiras de absorção e entendimento do fazer artístico, do tempo pra si e para o presente mundo em que estamos vivendo.
Após uma breve introdução e escuta da fala das e dos participantes sobre: o que é arte abstrata, entregamos para as pessoas um kit com formas geométricas diversas em MDF, em seguida a proposta era criar alguma imagem, alguma forma que não fosse figurativo, que pudesse vir junto a alguma sentimento interno (propondo um dos sentidos da arte abstrata que é o que vem de dentro e expor pra foram em alguma suporte e transformar isso em uma materialidade, nesse caso nas formas geométricas). Depois de montado as composições, entregamos os pinceis e as tintas acrílicas para que as pessoas pintassem em cima das formas geométricas, que colorissem e expressam ali a sua maneira de pintar, de produzir e de ver seus sentimentos através da arte abstrata. Este foi um momento bem interessante das oficinas pois, algumas pessoas tinham conhecimento de como usar as tintas e outras não, e ai foi interessante observar como as pessoas que não tinham tido contato com pintura em pincel e tinta se desenvolveram para colorirem as peças e foi bem interessante e emocionante ver a felicidades de cada pessoa ao realizar sua pintura, sua criação de maneira orgânica e sincera.
Depois destes momentos de teoria e primeira prática chegamos na terceira parte da oficina, que era o momento de colar as formas pintadas em cima de outra madeira em MDF (mais grossa no tamanho de uma A4) com uma cola instantânea. Neste momento, algumas pessoas não queriam sobrepor as formas em cima das obras para não “apagarem as pinturas que tinham sido feitas…”, daí colocávamos algumas questões para que as elas pudessem repensar e criar algo único, real e presente pra elas mesmas. E conseguiu fluir… com algumas pessoas, rsrsrs.
Durante todas as etapas da oficina, Viny e eu ficávamos próximas das pessoas vendo as aptidões e os encontros que cada uma e um deles tinham ao fazerem as criações. Foram cenas que, infelizmente a câmera não daria conta de capturar em imagens ou vídeos o que víamos, pois eram momentos únicos que levaremos conosco em nossa memória. Daí fica o convite para você, de participar desta oficina quando realizarmos ela em outra unidade do SESC.
Gostaríamos de agradecer a todas as pessoas que nos receberam neste mês de agosto no Sesc Jundiaí com muito respeito, atenção, compreensão, entendimento sobre a proposta da oficina que realizamos, a toda equipe da limpeza, de segurança, funcionárias diretas e indiretas que tivemos contato aos sábados na unidade, valeu demais, assim como todas as pessoas que puderam participar da atividade proposta de criar arte abstrata com formas geométricas, com tintas e com cores, que ousaram da criatividade e imaginação para criarem suas produções pois: todas as artes tiveram suas identidades, suas descobertas e autonomias feitas de maneira livre, liberta e coletiva. Agradecimento em especial ao amigo Viny Neri que esteve comigo neste trabalho, mandou muito bem meu camarada, a querida Hef que esteve presente em duas oficinas registrando em fotos, em vídeos e até criando a sua primeira arte abstrata em uma oficina, muchas gracias hermosa hermana.
Abaixo seguem todas as produções realizadas na oficina.
Participação no Festival Calor e Cor de Arte Urbana em Cuiabá/MT.
No dia 5 de julho de 2025, dei início a mais uma travessia da minha missão como muralista, artista visual e urbano — um ser que respira arte em meio ao caos e à beleza contraditória da vida e da cidade. Desta vez, segui rumo à última região brasileira que ainda não conhecia: o coração quente do Centro-Oeste, a capital mato-grossense, Cuiabá.
O voo partiu de Guarulhos/SP e em 2h30 de céu limpo, aterrissei sob um calor matinal que, apesar de ser cedo, já marcava 35 °C. A sensação? De uns intensos 40 °C, envoltos em uma umidade praticamente inexistente. Dali, segui direto ao ateliê do amigo e anfitrião, Rogério Marte, no Jardim Leblon. Me instalei, organizei mochila e notebook — companheiros de registros e reflexões — e fui em busca de alimento. Frutas, muita água e o entendimento claro: sobreviver à capital exigiria leveza no corpo e na alma.
No segundo dia, minha primeira pintura trouxe à parede as vibrantes cores da bandeira Whipala boliviana. Ali senti uma conexão profunda com os povos andinos — era como se minhas formas ganhassem energia ancestral. Mais tarde, saí com o grafiteiro Presto pelas ruas cuiabanas para espalhar cor, mas fomos surpreendidos por um acidente de moto. Felizmente, escapamos com escoriações e ainda conseguimos pintar um muro abandonado. A arte não espera — ela cura, resiste e transforma.
Minha chegada a Cuiabá também carregava um convite: participar do 1º Festival Calor e Cor de Arte Urbana. Fui chamado para uma mesa de debate sobre Mulheres no Muralismo e o Muralismo Brasileiro. Estar ao lado de Janín Garcin (México) e Thaynha (Brasil) foi um presente. A força das falas delas me fez apenas complementar com um recorte sobre muralistas brasileiros pouco conhecidos — gerando troca, debate, crescimento.
No dia seguinte, pincelei minha arte no muro da UFMT. Cores escolhidas com alma — rosa danone como base, acompanhadas por preto, vermelho, branco, laranja e açaí. Ao final, contemplei a obra por longos minutos, em silêncio. Era a primeira vez que minhas formas ocupavam um espaço acadêmico aberto. Uma emoção que ecoou como filme interno, revelando o poder do que faço e do que ouso sonhar.
Durante o festival, percebi minha função como ponte — alguém que conecta histórias, corpos e culturas através da arte. Entendi que minha missão é muito além da tinta nos muros. É acender possibilidades nas pessoas de que podemos tudo que queremos, basta fazermos acontecer.
Após o evento, conheci a Chapada dos Guimarães com outros artistas. O encontro com rios e paredões fez emergir memórias ancestrais. Vi a força da Pachamama, ouvi cantos de pássaros que tocaram meu coração, senti a presença dos meus e das minhas que partiram. A natureza me abraçou, me emocionou, me lembrou de onde vim e para onde sigo.
As cachoeiras do Parque Nacional foram um banho de vida. Mistura de fenômenos naturais e sentidos despertos. Tudo isso me atravessou com tamanha intensidade que as palavras quase não bastam.
Essa viagem foi muito mais que deslocamento físico. Ela mapeou emoções, desdobrou horizontes, redesenhou minha percepção sobre o fazer artístico e humano. Porque essa estrada chamada vida só faz sentido quando pintamos o mundo com mais do que tinta — pintamos com memória, com afeto, com coragem de existir.
Há 22 anos atuo pelas ruas pintando muros. No início estava mais focado no graffiti, na ilegalidade e no ato de pintar sem pedir autorização pelas ruas da cidade. O tempo era outro, mas os locais de ação eram sempre os mesmos. Próximo a minha residência – mas nem tanto para não dar bandeira demais – fui conquistando espaço e firmeza nos traços e nas criações das pinturas. Na época era eu e mais um amigo da escola. Juntávamos nossas economias, íamos a uma graffishop (loja que vendia tintas sprays, bicos de sprays e onde era possível encontrar outros grafiteiros e outras grafiteiras) para comprar algumas tintas sprays e sair pelas ruas para pintar. Depois de um tempo esse amigo parou de pintar pois havia arrumado emprego assim como eu, diferente deste amigo eu não parei e dei continuidade nas pinturas.
Tudo tem um início, não é mesmo? Por isso resolvi detalhar, mas sem ter uma data especificamente, mas tudo isso se faz necessário para dizer o quanto após a minha formação escolar meu olhar para o mundo ampliou, inclusive no que eu gostaria de atuar profissionalmente. Depois da escola trabalhei em uma confecção de roupas jeans na região do Bom Retiro em São Paulo, mas sonhando em sair fora do trabalho e fazer outra coisa mais agradável, que desse mais sentido e intensidade, mas não sabia em que área eu gostaria de atuar sendo um cidadão comum, mas a pintura sempre esteve presente e pulsando em minhas veias.
Em 2006 entrei na universidade para cursar História e, durante a graduação me dei conta do papel que a educação não formal estava presente em minha vida, e em 2007 fui trabalhar dando aula em um projeto social de Arte Graffiti no extremo da zona leste da cidade. O salário era razoável e os dias de trabalho eram poucos por semana, assim sendo consegui conciliar trabalho, estudo e as primeiras pesquisas sobre como atuar enquanto educador social e artista, isto ampliou demais meus horizontes e fui me encontrando nesse caminho, um caminho sem volta. Com isso, aprofundei meus estudos e pesquisas no campo da educação, da arte e da cultura. E foi a melhor escolha que pude fazer em minha vida.
Momento de atuação e descobrimentos.
Comecei a pintar nas ruas em 2003 com a intenção de: fazer meu apelido nas paredes, escrever de maneira colorida com letras que pudessem ser de fácil acesso de leitura para as pessoas comuns da região onde eram feitas as pinturas. Se eu dificultasse mais o graffiti, isso afastava e não aproximava as pessoas de mim. Então resolvi fazer algo que pudesse gerar mais acessibilidade e integração do que afastamento.
Em 2008 comecei a fazer trabalhos mais abstratos nas ruas. Os trabalhos continham linhas, formas que me levavam para lugares que me confortava, mas que na época eu não tinha ideia de onde isso tudo iria me levar. Contudo, algumas descobertas foram desvendadas no processo e, aprofundar nas investigações e pesquisas artísticas colocou-me em contato mais próximo comigo mesmo, assim como as criações que eu estava fazendo.
“Não consigo mais separar o meu particular das minhas criações, tudo está na mesma conexão para mim.” xCHEx.
Em 2010 foi o ano que me dei conta que eu era um artista. E mais: pesquisador, historiador, educador social e um sonhador de ver, cada vez mais, ver meus trabalhos sendo valorizados e colocados no mundo para além das galerias de artes, de museus (neste momento a cidade de São Paulo estava vivenciando um momento gigante novas galerias de arte voltadas as artes urbanas), e eu apenas queria fomentar minhas criações e colocar nos espaços o que eles mereciam ter através das cores, das formas e da minha presença.
No caminho fui em busca de mim mesmo tentando me encontrar e ver a potência do meu trabalho, passaram-se alguns anos e comecei a conectar o meu universo criativo com o movimento muralista contemporâneo. Mas, algumas coisas me pegavam nessa época referente ao movimento muralista: Porque na graduação universitária, eu não vi nada a respeito da Revolução Mexicana (1910), muito menos sobre o Muralismo Mexicano? Porque na época da escola básica não foi trabalhado esse fato histórico nas aulas de História, de Artes e até mesmo na Geografia? Afinal, porque não aprendemos quase nada sobre o território de Abya Yala [1]– América Latina? Dentro destas inquietações pessoais comecei a investigar por conta própria alguns autores e autoras, pesquisadores e pesquisadoras, pessoas que estudavam sobre o Movimento Muralista Mexicano, sobre o México, sobre as e os artistas que atuaram, e que atuam neste território.
Essa investigação não teve mais fim, e desde 2013 até hoje ela está presente comigo. Já se passaram mais de 10 anos e, a cada passo que dou e percorro percebo que nada sei, e que ainda há muitas coisas a serem conhecidas nesse trajeto, e que assim seja.
De fato, o movimento muralista mexicano influenciou artistas latinos e estrangeiros, mas minha atenção foi com artistas que produziam arte nesta perspectiva e que se encontram próximas donde vivo e atuo. Saber que o muralismo foi um movimento artístico que teve apoio maciço do governo pós a Revolução Mexicana, e que as ideias e correntes anarquistas estiveram envolvidas durante a Revolução e no início do muralismo (surgimento em meados de 1922)[2], e que mulheres atuaram – e outras tentaram e não conseguiram ter espaço – no movimento artístico em decorrência do machismo e do patriarcado, praticado por homens assim como pelos artistas Diego Rivera, David Alfaro Siqueiros e José Clemente Orozco – considerado os três principais artistas responsáveis pelo Movimento Muralista Mexicano – existiram também muitas mulheres, dentre estas referências: María Izquierdo, Aurora Reyes, Frida Kahlo, Rina Lazo foram “esquecidas” pela historiografia, mas que começaram a ter suas obras vistas, revistas e reelaboradas em pesquisas recentes a respeito da atuação direta das mulheres artistas no movimento, assim como da importância de seus trabalhos e existência enquanto seres humanas e mulheres.
Fazer acontecer e se surpreender: a potência da coletividade é vibrante e construída diariamente.
Nesta caminhada de 23 anos diversas lembranças perpassam pela memória recheada de encontros e desencontros, aventuras e tretas. Aqui me atento a uma destas memórias – não mais importante que as demais obviamente – mas que é recente, que foi minha ida para a região nordeste do país para a cidade de Acaraju, SE, e depois para outra cidade em outro estado chamada Juazeiro do Norte, CE e em seguida para Penedo, AL. Não foi de treta, podem ficar tranquilas, tranquiles e tranquilos.
Na minha tour, realizada em 2024 passei por alguns estados da região nordestina onde consegui pintar em todos os estados que visitei. Na ordem foi: saída de Guarulhos – SP, chegada em Aracaju – SE, depois Juazeiro do Norte – CE, retorno para Aracaju – SE e por fim Penedo – AL, nesta última culminou numa oficina realizada em uma escola pública onde um irmão e amigo é professor de história, Fernando Souza Cruz (Fernandinho).
Após organizarmos toda estrutura e os materiais para a realização da oficina para turma do 3º ano do ensino médio de 2024 pude apresentar minha trajetória e depois mostrei alguns conceitos sobre o que foi o Muralismo Mexicano assim como o Muralismo na atualidade, falei um pouco sobre arte urbana, graffiti x pixação, sobre pertencer a um ou vários territórios e fazer-se ser visto por estar ali através da pintura, construindo novas relações com outros lugares em prol de da coletividade, através da pintura de murais e intervenções urbanas.
A troca de ideias com alunas, alunes e alunos foi bem potente, carregada com diversas dúvidas estruturais de: como pintar sem autorização, como pedir muros e espaços, como lidar com a polícia e as denúncias que ocorrerem por pintar nas ruas, até mesmo qual minha intenção de fazer isso tudo e ser artista. Foi rico e potente este momento.
De fato, há um hiato enorme entre o existir e coexistir mediante a distância e os encontros possíveis. Mas a descoberta do aprender na coletividade com respeito e empatia, fez da oficina um momento ímpar entre nós. No momento que começamos as pinturas, olhares atentos se fixaram nas modificações que a escola foi recebendo, onde a transformação ocorreu com cores, com mensagens expressas por alunas, alunes e alunos no muro, os momentos de encarar as limitações, as inseguranças e os medos de “errar” alguns traços, de “não saber” fazer isso ou aquilo, fez da oficina um momento de desapego, tornando cada instante e situação um fato único e liberto, para marcar a presença da turma no último ano escolar em suas memórias e na memória da própria escola.
Os processos são fatos decorrentes de uma ação em prol de algo, e isso foi o que mais reverberou em mim enquanto ser humano, enquanto artista, enquanto pesquisador, enquanto educador e enquanto um sonhador de dias melhores dentro e fora da educação básica, dentro e fora da educação não formal, dentro e fora do campo das artes. Mesmo sabendo de toda dificuldade e improbabilidades impostas para quem está lá no dia a dia da vida escolar, são momentos como estes que modificam, dão respiro e forças, onde a percepção e a visão pessoal são transformadas, modificam a si e modificam as relações sociais e coletivas.
Os sorrisos e as faces de satisfação, da descoberta de poder pintar livremente, de colocar na parede um desenho, uma mensagem que simboliza parte da identidade e dos sonhos e desejos pessoais e coletivos da turma que participou da oficina foram alcançadas nesta atividade. Momento de prazer, de contemplação e de: “olha lá, nós conseguimos”na fala de uma aluna, foi rico e importante demais para eu ter a certeza do quanto o pensar, o construir, o elaborar, o rascunhar, o fazer, o refazer e os encaixes necessários para a participação de todas, todes e todos no mural são momentos históricos e reais.
Após 2 meses do meu retorno para casa, recebi mensagens de diversas alunas, alunes e alunos me agradecimento pela realização da oficina, e eu retribui-a dizendo que: “Eu também saí da oficina preenchido de ótimas recordações, com tantas histórias e relatos emocionantes sobre o quão foi é pintar muro e fazer um mural coletivo”, e, de fato ficou marcado em minha memória este momento único e potente de trocas e escutas sobre nossas histórias, vivências e nossos sonhos em busca de outros mundos possíveis.
Atuar na escola é atuar para um mundo mais humano e menos competitivo, pelo menos deveria ser.
Minha formação acadêmica é em história, e ter mergulhado por completo no Movimento Muralista Mexicano foi um passo a mais em minha trajetória como historiador, como artista e como pesquisador autônomo. Não é fácil perceber o quanto esse tema é esquecido e nem sequer lembrado nas aulas e História, muito menos nas aulas de Artes no ensino público, afinal é um tema de ciência humana que coloca a população deste lado do planeta em evidência dentro de uma proposta outra, que não a eurocêntrica. Até porque: não é um assunto de relevância dentro do BNCC (Base Nacional Comum Curricular)[3] assim como da própria História. Até mesmo o nome da disciplina – História – é apresentado apenas no ensino fundamental II, e no Ensino Médio foi colocada a disciplina dentro das Ciências Humanas e Sociais Aplicadas junto as disciplinas: Geografia, Filosofia e Sociologia.
Descaracterizar a disciplina História em um documento oficial de educação básica mostra o total desinteresse da legislação e da administração pública federal encara o ensino de história, de geografia, de filosofia e de sociologia. Mesmo que exista um abismo entre teorias e práticas, há educadores e educadoras que apostam em ultrapassar os muros existentes do campo (in)possível da educacional formal para realizar atividades como esta que ocorreu em Penedo/AL, de abordar sobre um tema que: “pouco importa” para um suposto currículo da formação básica, mas que para a existência humana ressoa em possibilidades de uma amplitude de visões e entendimentos sobre si, sobre o mundo, sobre as relações humanas, sobre a coletividade e participação popular nesses processos.
Durante a apresentação com a turma do 3º ano do ensino médio foi apresentada algumas imagens das obras artísticas das artistas mulheres muralistas mexicanas, alguns conceitos e definições sobre o surgimento do movimento e seus desdobramentos, a proposta de abordar com a turma e propor uma ação prática, uma pintura coletiva dentro da escola motivou a turma a esgarçar as mangas e ir para a ação. Isso é o Muralismo Contemporâneo, isso é uma ação direta, coletiva e participativa.
Com a autorização da direção da escola para a pintura dos muros, respeitamos os espaços destinados para a intervenção e fizemos as siglas do nome oficial da escola e dentro das letras cada participante da oficina pode realizar um desenho autoral. Pedi para que a turma pudesse deixar algum recado para as futuras e futuros estudantes da escola, assim como uma mensagem para o próprio futuro, e assim o pessoal fez da maneira que podiam, com os conhecimentos que tinham e abrindo espaço para uma outra ação – dentro da escola, e fora da sala de aula.
A atitude de escutar, de construir coletivamente, de entender o espaço, de compartilhar materiais, de ter entendimento de construir na individualidade, e observando a coletividade, deixar as interferências acontecerem e buscar resoluções para as questões surgidas na ação foi a cereja do bolo na oficina. Perceber o lidar da turma com as adversidades, com as descobertas do fazer e do sentir em produzir conhecimento e limites do agir e ver a alegria e a felicidade das pessoas foi maravilhoso demais, perceber a importância de atividades como estas onde as pessoas podem ser “livres” e seguir seus instintos em registrar no muro parte de suas vidas, com recados, com desenhos, com cores, com formas nem sempre convencionais, para torná-las inesquecíveis, únicas e memoráveis.
E assim foi esse decolar memorável, cheio de aventuras, descobertas, potencialidades, crises, medos, anseios, desdobramentos e rearranjos nos processos de pensar, ser e agir. Tudo isso em coletividade, entendendo também nossas diferenças e respeitando o que poderia vir acontecer. O resultado final não existiu, pois ali se abriram outras portas, outras possibilidades para se entender no mundo e criar outro mundo possível e, reafirmando a importância do pensamento que Nego Bispo, finalizo com dum dos seus pensamentos e que foi como presente em sua passagem por aqui:
“Somos povos de trajetórias, não somos povos de teoria. Somos da circularidade: começo, meio e começo. As nossas vidas não têm fim. A geração avó é o começo, a geração mãe é o meio e a geração neta é o começo de novo.” (SANTOS, Antônio Bispo dos).[4]
[1] Abya Yala são palavras indígenas de origem do Povo Kuna da Colômbia e do Panamá e significa: Terra Madura, Terra Viva, Terra em Florescimento. “A primeira vez que a expressão foi explicitamente usada com esse sentido político foi na II Cumbre Continental de los Pueblos y Nacionalidades Indígenas de Abya Yala, realizada em Quito, em 2004. Em 2007, a III Cumbre Continental de los Pueblos y Nacionalidades Indígenas de Abya Yala resolvem constituir uma Coordenação Continental das Nacionalidades e Povos Indígenas de Abya Yala,“ como espaço permanente de enlace e intercâmbio, onde possam convergir experiências e propostas, para que juntos enfrentemos as políticas de globalização neoliberal e lutemos pela liberação definitiva de nossos povos irmãos, da mãe terra, do território, da água e de todo patrimônio natural para viver bem”. Mais em: https://iela.ufsc.br/projeto/povos-originarios/abya-yala/
[2] Para alguns autores, o movimento muralista surgiu em 1922. Ver VASCONCELLOS, Camilo de Mello. O Museu Nacional de História do México (1940-1982) São Paulo: Alameda, 2007. Pág. 158.
Numa noite de chuva me ajeitei com uma calça, uma camiseta antiga, arrumei o cabelo, vi o trajeto antes de sair de casa até o local do show e deixei tocando no fone algumas músicas para alimentar minha mente, introjetar coragem na minha corrente sanguínea pra continuar na caminhada, na trilha para observar, aprender mais em como lidar com possíveis adversidades. Sim, elas sempre estarão presentes em nossa caminhada, seja ela qual for.
Andanças noturnas.
Embaçado, mas visível.
O local de destino foi um bairro bem afastado de onde moro, e o transporte privado/público foi a solução pra me locomover e descolar até o show. Ah, se fosse público não pagaríamos, ou pagaríamos um valor bem simbólico… Enfim, me desloquei de lotação, metrô e ônibus (na ida). No trajeto a chuva engrossou e eu peguei ela quando cheguei no centro da cidade. Me molhei propositalmente, estava precisando deixar a água da chuva me lavar um pouco e embasar meu óculos. Quando peguei o ônibus – o último até chegar no local – começava a aguçar em mim uma baixa sensação de ansiedade. Afinal de contas, estava indo ao show de uma banda muito, mas muito importante em minha trilha. E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante realizou seu último show do ano em SP na, Vila Madalena no BarAlto e lá eu estive presente. O show estava marcado para iniciar as 21h, mas com a chuva a galera segurou um pouco e começou as 21:35h aproximadamente.
Antes do Show.
Durante um show.
Quando começou com o primeiro riff consegui fechar meus olhos pra imergir comigo mesmo. Ao mesmo tempo, fui tomado por um encharcamento de água salgada nos meus olhos, que começou a escorrer pelo meu rosto transbordando minha face, meu pescoço e minha camiseta. Não, não era suor – ainda – mas era algo que estava dentro de mim e que precisava sair, transpor e existir para além de mim. Daí, a distância se encurtou, e me deixei levar pelo som, pelos acordes, pelo bumbo e caixa da bateria, assim como pelas distorções das guitarras e do baixo presentes no espetáculo, além de outros instrumentos. Foi uma sensação ímpar onde: banda, eu e minhas neuras se conectaram, me fizeram balançar, observar e vivenciar todo o show com uma grande admiração e respeito pelo quarteto e por mim mesmo.
Entrega pura e real.
Neste momento estou aqui meio engasgado, lembrando dos momentos marcantes do show e de tudo que senti, vivi e presenciei em uma noite chuvosa de São Paulo vendo uma banda que admiro por demais. Foi a 2ª vez que via a banda ao vivo, a primeira tinha sido ano passado no Sesc Belenzinho, mas este teve um gosto especial, estava bem próximo da banda justamente pra sentir toda energia e a vibe maravilhosa que foi orquestrada neste show.
Com certeza não vai parar por aqui. Expressar em palavras e na captura de algumas imagens deste momento me fazem bem, me faz sentir parte de um todo que não está tão distante assim, esta mais próximo do que posso imaginar.
Muito obrigado: Lucas Theodoro, Luccas Villela, Luden Viana e Rafael Jonke – E A TERRA NUNCA ME PARECEU TÃO DISTANTE por ter me dado a oportunidade de ver vocês novamente onde me permiti chorar, emocionar, refletir, me limpar de tudo que não me faz bem e estar firme e forte pra continuar e seguir até vocês e ir em busca do que quero pra mim. Valeu mesmo.
O retorno pra casa se faz necessário.
“Tudo que molha, uma hora seca. E transforma tudo que esta em volta.”
No dia 24 de novembro de 2024 realizamos a 6ª edição do VeganSxEFest no Estúdio Rock Together na zona norte da cidade de São Paulo. O coletivo convidou 4 bandas para se apresentarem nesta edição, 1 palestrante, além de comidas, discos, merchandises das bandas e até um brechó no espaço aconchegante do estúdio.
Cartaz produzido por Alexandre Kool.
O intuito do VeganSxEFest no início foi de realizar um evento com bandas sxe e veganas da cena paulista, após o primeiro evento os organizadores Erick e Fabrício viram que: se fosse pra ser assim não teriam bandas suficientes para fechar o próximo evento. Daí por diante, o duo organizacional do evento começou a convidar bandas que tivessem, ao menos um integrante sxe e ou vegan. Daí a coisa começou a deslanchar em diversidade de bandas, de pessoas sxe e veganas no rolê sem ser taxativo e rigoroso demais com somente bandas sxe e ou vegans.
Neste ano fomos ousados e ousadas, resolvemos fazer 2 eventos no mesmo ano, e deu certo. O duo deixou de existir pra se tornar um coletivo, composto por 6 pessoas: Erick, Fabrício, Jaine, Leonardo Cantis, Pati e xCHEx. Nesse formato, conseguimos realizar a 6ª edição que foi: “marcante e histórica” na avaliação pós evento de todo o coletivo.
No som foram chamadas as bandas: N.O.I.A.D.O., ANGVSTIA, POSTVMO E INSTITUCION. Para palestra foi convidado o – agora livre docente – da USPLESTE Reinaldo Pacheco, que abordou a temática sobre a Universidade Pública, sobre os investimentos e sustentos que ela possuem para subsidiar sua existência. Estiveram presentes as bancas de comidinhas: Cozinha Bons de Bico, TOYA Vegan, na venda de discos o LOBINHO Discos além do merchan das bandas presentes no evento.
Importante deixar registrado que: o coletivo do VeganSxEFest não tem buscado inventar a roda da cena do hardcore punk vegan straight edge da cidade, nem tão pouco pegar a bola e fazer com ela pareça ser apenas nossa e de mais ninguém. Pelo contrário, queremos que ela seja dividida, compartilhada e aguçada por outras pessoas para que, eventos como este aconteçam mais e mais em outros lugares com outras pessoas a frente. Jamais pensamos em fazer um momento como este para aparecer que somos: fodas ou algo do tipo. Fomos construindo esse role cada qual com sua particularidade, errando e acertando edição após a outra edição e, mesmo assim sempre vemos onde podemos melhorar, aceitando críticas e sugestões de quem quiser somar conosco.
Sendo assim, queremos agradecer imensamente a todas as pessoas que somaram para este encontro e momento ter acontecido. As pessoas que colaram pela 6ª vez como as que foram pela 1ª vez, nosso muito obrigado.
Aqui quem fala é mais um sobrevivente, morador da periferia de SP, sxe, vegan, que não se limita a agir e a fazer os corre somente virtuais. Quem ta no corre não ta de chapéu atolado.
Tem dias que as 24 horas dobram em 48 horas, uma duplicidade sem igual e que, quando acontece você já esta mais da metade do dia tendo feito coisas pra caramba. Nem sempre é assim, mas quando isso acontece é, no mínimo estranho e contagiante, ainda mais que o corre vale muito a pena.
O mês de novembro é o penúltimo do ano o número 11, além de ser um mês que muitas pessoas aguardam, sejam por estarem próximo do ano, ou por conta das férias, descansos, viagens, pausas e ou o momento de levantar aquela grana com bicos e mais bicos por ai a fora, é também o mês da Consciência Negra (20 de novembro) dentre outros acontecimentos importantes, dentre eles a Feira Anarquista de São Paulo. Neste ano enviei uma proposta de dialogar na feira a respeito do Muralismo, da América Latina e das Ações Coletivas que acontecem nestes territórios.
Realmente foi um dia atípico: acordei as 6hs da manhã em despertador do celular – pois o mesmo tinha dado pau -, tomei café, arrumei as coisas na mochila, conferi a apresentação, fiz os últimos ajustes, abri as janelas de casa e, em seguida fui rumo a zona oeste da cidade, vale lembrar que eu moro na zona leste, portanto um rasgo de ponta a ponta da minha casa até a feira anarquista, do outro lado da cidade.
Cheguei cedo na Escola Municipal de Ensino Fundamental Desembargador Amorim Lima no Butantã. O início da feira estava marcado para as 10hs, e eu cheguei as 9:45hs. Deu pra dar uma olhada na organização das bancas de livros e zines, assim como da galera que levou comidas para o evento. As 10:30hs foi anunciada a abertura da feira e a galera foi chegando. A roda de conversa que propus estava marcada para começar a 11:30hs. Esperei o camarada Perê chegar com algumas coisas e aguardamos o horário para dar início na atividade, e que atividade.
Estiveram presentes na roda de conversa e apresentação em média umas 30 pessoas, destas uma 23 ficaram do início ao fim. Depois da apresentação, abrimos para uma conversa e coleta de dados de pessoas que tiveram interesse em saber mais sobre as ações de murais e pinturas coletivas que desenvolvemos pela cidade. De fato, a troca e a escuta foram importantes e necessárias para perceber que: a galera tem fome e cede de ocupar as ruas com este tipo de intervenções coletivas e diretas.
Após o término da roda de conversa, dialoguei com algumas pessoas e fui almoçar. após uma feijoada vegana maravilhosa que comi, fui me despedindo da galera e fui para o segundo compromisso do dia que foi o VeganxFesr, que ocorreu no zona norte da cidade. Cheguei no horário combinado com o coletivo e ainda consegui ver as primeiras bandas tocarem. Daí pra frente foi só emoção. Uma roda de conversa muito massa com o camarada e amigo Reinaldo Pacheco a respeito da universidade pública e a defesa pela sua existência, depois da roda de conversa tiveram mais 2 bandas pra encerrar o rolê. Com certeza um dos dias mais correrias e massas que tive nesse ano.
Saldo do domingo ,24 de novembro de 2024: realizado por ter feito tudo conforme por mim planejado; várias trocas de ideias muito importantes para o meu amadurecimento e entendimento das minhas lutas e causas, escuta atenta e observação mais que necessária, pra este momento eu observar o meu lugar nesse mundo e como posso contribuir pra ele ser mais fraterno, mais coletivo e menos competitivo e injusto. E sim, a luta e essa correria quero que seja pra toda minha vida.
E assim vou seguindo, as vezes mancando e fraco, mas sem desistir. Para mim, esta não é uma opção.
Falar atualmente sobre muralismo no Brasil se tornou algo evidente nas redes sociais, nas plataformas de comunicações tradicionais (jornais e sites jornalísticos) por conta da dimensão e notoriedade que as ruas, avenidas, becos, vielas e agora prédios e empenas ganharam. Torna-se comum ouvir frases tais como “pinturas enormes” ou “estas artes são feitas por muralistas”. Mas, será o muralismo atual e sua atuação ao pintar grandes muros/empenas o que o define? Mencionar estas pinturas grandiosas como exemplo do conceito de muralismo é a maneira mais fácil de entender o movimento?
Para isto, é importante voltarmos para o início do século XX para tentarmos entender sobre o que foi Movimento Muralista Mexicano (1920-1922), após a Revolução Mexicana (1910), quando as classes sociais, sindicatos, camponeses, indígenas, estudantes, intelectuais, pobres se organizam para dar um basta na política do General Porfírio Díaz, que era líder do exército mexicano de 1876 até 1910. Quais suas características e fundamentos para a história social e das artes?
Vale lembrar que o início do século XX foi bem agitado socialmente e com vários acontecimentos: Primeira Guerra Mundial (1914-1918), Revolução Mexicana (1910), Revolução Russa (1917), Crise Econômica dos EUA (1929) dentre tantas outras revoltas em Abya Yala. Neste momento, a efervescência cultural e política no hemisférico sul do planeta estava acoplada aos movimentos sociais e com outros movimentos de cunhos autônomos (sem participação de partidos políticos).
Fato é que a Revolução Mexicana teve um apoio significativo das correntes políticas socialistas, mas não só. O anarquismo teve um papel fundamental e importante para a pulverização das ideias anarquistas em Abya Yala. Inclusive, a revolução foi vista como uma das primeiras revoluções anarquistas, que envolveram profundamente em suas ações com camponeses, indígenas, pobres, trabalhadoras e trabalhadores. Os Irmãos Flores Magón: Enrique Flores Magón e Ricardo Flores Magón [1], após o exílio nos Estados Unidos chegam no México no início da revolução com lema: Tierra y Libertad para compor a luta popular, social e anarquista. O Estado mexicano financiava as pinturas murais diretamente com artistas muralistas. O Movimento Muralista teve sua ascensão no país após 10 anos da revolução, e assim os artistas e o muralismo ganharam força, intensidade e se tornaram referência em grande parte do território mexicano, assim como para críticos de artes.
Esses ideais propostos pelos muralistas e expressos em suas obras iam ao encontro dos projetos educacionais de José Vasconcelos, secretário de Educação Pública durante o governo de Álvaro Obregón (1920-1924) [2]. (Vasconcelos, 2007, p.159)
Ao analisar esta afirmação podemos observar o tamanho e a potência do Muralismo Mexicano, assim como da sua influência e apoio dos governos pós-revolução mexicana. Vale ressaltar que 85% da população mexicana era analfabeta. Com isso, o ato de pintar edifícios públicos, escolas, bibliotecas, departamentos governamentais, hospitais foram ações práticas e diretas para minimizar o analfabetismo através da arte, onde as imagens contavam as histórias da população mexicana. Segundo Aracy A. Amaral:
Por sua irradiação pelo continente americano inteiro, consideramos hoje o movimento mexicano muralista – mais de cinquenta anos passados desde suas primeiras realizações – como a primeira articulação continental dos artistas contemporâneos da América [3]. (Amaral, 1978, p. 281)
Nesse sentido, o Movimento Muralista Mexicano foi extremamente importante para os países que pertencem ao território de Abya Yala, assim como no continente europeu e na América do Norte.
Mais do que mencionar as biografias dos artistas que foram considerados os responsáveis pela criação e articulação do Movimento Muralista Mexicano, busca-se entender os pormenores que aconteceram com algumas artistas, para termos outras reflexões a respeito deste movimento tão importante para a história da arte, para a história humana e para o mundo.
María Izquierdo, Aurora Reyes, Rina Lazo (Guatemalteca, mas viveu no México), Frida Khalo, Diego Rivera, David Alfaro Siqueiros, José Clemente Orozco, Di Cavalcanti, Cândido Portinari são algumas das referências históricas de artistas muralistas que pulverizaram essa manifestação artística no México e aqui no Brasil. Obviamente, o contato destes artistas não foram realizados dentro de uma perspectiva coletiva e acolhedora, pelo contrário, foi muito difícil para as mulheres estarem envolvidas diretamente com o fazer artístico muralista em pleno século XX, serem lembradas, valorizadas, chamadas para atuarem em projetos de pinturas de murais autorais. Infelizmente há poucas publicações e estudos sobre estas mulheres artistas.
María Izquierdo. 1902-1955.
Aurora Reyes. 1908-1985.
Rina Lazo. 1923-2019.
Existem alguns trabalhos interessantes, e fica a dica para quem quiser pesquisar e fazer trabalhos aprofundados a respeito das mulheres artistas que atuaram durante o período do movimento. E a estas mulheres devo meu total respeito e admiração por tudo que elas fizeram e produziram, deixando um legado sensacional e único. Cita-las aqui é o mínimo que posso fazer para que elas sejam lembradas e reconhecidas como mulheres, mulheres artistas e mulheres muralistas. Sendo assim, há perguntas que não podem deixar de serem feitas após estas palavras descritas neste texto:
Quais as intenções que estão ligadas ao movimento muralista mexicano com as pinturas existentes hoje em dia nas grandes cidades do território brasileiro, assim como de outros países em Abya Yala?
Como podemos decodificar o que está mais próximo de uma memória, de uma história, de um fato ocorrido, de uma ancestralidade viva que, apesar das violências estruturais, não deixaram de existir?
Espero que, ao analisar as ruas, as avenidas, os becos, vielas e prédios das cidades possamos exercitar o olhar e estes questionamentos, visto que hoje muitos artistas assinam seus trabalhos com suas contas nas redes sociais e o contato direto pode ser até mais fácil – ou mais complicado – para quem quiser discutir e ampliar os horizontes.
Para finalizar: o Muralismo não são pinturas, tão somente, pinturas em grandes escalas. O Muralismo é uma ação que envolve pesquisas, diálogos, construções de esboços de maneira coletiva, memórias, histórias, denúncias, lembranças de fatos, participação popular, envolvimento social e ações diretas.
[4] Vander, 37 anos conhecido como xCHEx é muralista, historiador, artista visual, pesquisador, vegano e straight edge, morador da zona leste da cidade de São Paulo.
Não existe fim, mas sim o início, o meio e o recomeço. Assim sendo, esta postagem começa de outro ângulo, porém com intencionalidade de registrar a minha passagem por parte de Sergipe, uma grande parte da Bahia, Pernambuco e parte do Ceará. Afinal de contas: é o nordeste quem me ajudou a entender mais sobre mim, sobre minha pequenez e minha grandeza ao mesmo tempo.
A caminho de Juazeiro de Norte/CE.
Momento de pausa, de contemplação e de respirar.
Partes do nordeste brasileiro.
Foram 9 horas e 30 minutos de viagens por 2 estradas federais e 1 estadual de deslocamento da cidade da capital de Sergipe, Aracaju até chegar a cidade de Juazeiro do Norte no estado do Ceará. Passei por diversas cidades e vilarejos, por comunidades grandes e outras pequenas, vi paisagens mil desde o verde das matas ao vermelho amarronzado das partes mais secas durante o percurso. Avistei do viaduto o Velho Chico e sua correnteza que desci rumo a outras cidades e ao Oceano Atlântico. Definitivamente uma das viagens mais significativas e importantes que já realizei em minha vida.
Horto – Juazeiro do Norte/CE e a estátua do Padre Cícero.
Ao fundo a Chapada do Araripe.
Paisagens que fascinam.
Estou a 10 dias longe de casa, longe da minha família e de alguns amigos e amigas especiais. Ambas estavam cientes da minha viagem e também da necessidade que precisava dar uma pausa em algumas coisas para dar continuidade em outros projetos e movimentos. Fato é que: precisava muito mesmo e isso tudo aconteceu no momento certo e na hora certa. Já chorei muito, cutuquei minhas feridas, revi a mim mesmo e percebi o quanto preciso me amar, estar bem comigo mesmo pra continuar fazendo o que amo, que são: pintar muros e viajar. Desta vez foi sozinho, sem companhia alguma e foi muito bom. Afinal, a responsabilidade e preocupação foi 100% somente a mim mesmo. Algumas pessoas podem achar que isso é egoísmo demais, que eu deveria repensar e tals… mas a real é que eu precisava muito desse momento para me reconectar, para esta mais presente comigo mesmo, de me ver e enxergar as minhas questões, minhas tretas, meus medos e minhas vontades.
Amin com Carinho.
“Auto retrato e sobre minha caminhada.
Há muito tempo não conseguia me ver no espelho, me enxergar. Algumas demandas eram pra suplementar as necessidades alheias, enquanto as minhas não eram suplementadas. Com isso esqueci quem eu sou, entrei no modus operandi e só eu fui. Demorei pra reparar os pelos brancos da minha barba, de ver que estou chegando em outro estágio da vida, vida adulta e que ela acarreta não apenas responsabilidades, mas sim outros modos de viver a vida e de ver o mundo.
Me vi no meu próprio espelho, tenho orgulho de algumas coisas e outras nem tanto. Vi sombras e medos, machucados e traumas. Mas vi desejos, vontades e quereres. Cheguei aos 37 anos com algumas demandas que nem me perguntaram se eu assumiria, mas fui lá e assumi. Talvez esse seja um resquício do patriarcado em mim, do machismo e da bravura.
Mas também choro, também sinto saudades da minha infância, também busco coisas boas nas relações afetivas, de amizade e familiares. As vezes erro, mas quem disse que tem acertar sempre? O combate daquilo que não quero pra mim é diário e a todo instante.
Mas é isso. É na caminhada da vida que eu vou me conhecendo e me valorizando.
Superei uma gestalt. Viajei sozinho pro nordeste, depois dirigi por 9h30min de Aracaju/SE até Juazeiro do Norte/CE e vi muita coisa linda, vi muito verde e também muita seca. Vi paisagens lindas e até o Velho Chico, pedi licença e atravessei. Pois é. Superei a mim mesmo e percebi que preciso mais de mim comigo mesmo do que qualquer outra coisa ou pessoa.
Esse registro é sobre mim, sobre minhas fragilidades e conquistas, sobre as quedas e os levantes. É sobre a minha vida.
Saudações a quem passa aqui neste espaço virtual para acompanhar minhas ideias, alguns registros, ver algumas fotos sobre o que faço enquanto artista e ser humano, enquanto xCHEx e Vander. Não consigo separar ambos, afinal sou a mesma pessoa, não é mesmo?
Há 1 semana e 1 dia estou longe da minha casa, longe da minha mãe, irmã de alguns amigos e amigas. São poucas pessoas nesse repertório, e estas poucas em quantidade são gigantes em diversos requisitos, que acabam se tornando especiais em minha caminhada. Durante este tempo fui caminhar na areia da praia, pedalei alguns kms, parei e esperei quando a respiração estava ofegante, sentei quando tive vontade, mergulhei algumas vezes e pensei muito em mim, com lágrimas escorrendo no rosto, sobre minhas ações e comportamentos, sobre meus projetos, vontades e desejos, sobre quem já se foi e as saudades que sinto de quem nunca mais verei na vida. Até vi o nascer na lua cheia, que surgiu do meio do mar até chegar a metade da sua altura em cima da minha cabeça, um momento muito importante pra mim.
O grande amadurecimento não vem de ficar no sol, pegando sua energia e acreditando que isso será o suficiente. Amadurecimento vem com outra ideia de tempo, de entrega, de querer e de necessidades. Às vezes, estas necessidades são forçadas pela vida e dai tenho que remexer meus pensamentos, agir e continuar na lida.
Conheci o camarada Wanderlan Porto, educador de filosofia, pensador e eletricista através do meu amigo Fernandinho. Me propus a fazer uma pintura autoral em sua casa, combinamos e lá fui para fazer o “destravamento” e dar o “play” em minha vida ao nordeste. Conversamos sobre diversos assuntos (dos quais sugiro a vocês irem no perfil do Wanderlan (clicando aqui) para lerem um pouco deste momento de encontro, de conexões e de firmamento de uma amizade) e fiz a pintura conforme as ideias e o meu ouvir iam captando as informações. No final recebi um grande agradecimento, aproveitei e fiz o mesmo: agradeci pelo espaço e oportunidade de adentrar na residência do Wanderlan, de poder pintar e deixar registrado a minha passagem na residência e em Aracaju novamente.
Após esta primeira semana e 1 dia da minha permanência em Aracaju, percebi o quanto estou adoecido mentalmente, o quanto preciso me cuidar e principalmente olhar pra mim, até mesmo pra me achar e reconectar com o que me faz bem. Já disse isso em outros momentos da minha caminhada e já compartilhei com algumas pessoas, fato é que: pintar me alivia, me faz ter conexões e me coloca em situações onde: o que faço é apenas o que sinto. E deixar o mundo mais leve, mesmo que eu não esteja tão bem, é fazer com que para outras pessoas possam ser dias melhores com as cores, as formas e as pinturas que faço.
Vou caminhando, e tendo a certeza que: o que faço é importante demais pra mim e para algumas pessoas, algumas porque muitas – as vezes – entenderiam de outra forma, de outra maneira. E pra mim: menos é mais nos últimos tempos.
Coroa do Meio. Aracaju. SE.
Coroa do Meio. Aracaju. SE.
Atalaia. Aracaju. SE.
Praia do Robalo. Aracaju. SE.
Por do sol em Praia do Robalo. Aracaju. SE.
Pintura interna residencial. Praia do Robalo. Aracaju. SE.
Há mais de 20 anos produzo pinturas nas ruas, nas avenidas, em becos, vielas, postes, placas de trânsito, espaços abandonados e ocupados e as pinturas em outras plataformas, tais como: telas, tecidos, madeiras, papel perduram menos tempo, uns 15 anos. Somando ambos dá quase minha idade de existência que, na atualidade é de 37 anos de vida. Pois bem, nesse tempo todo relutei ao extremo em aprender algo sobre os programas de criação e manipulação de imagens, dentre os programas o mais conhecido da Adobe chamado de Photoshop. Pois bem, de tanto relutar comecei a usar o programa e me pergunto: por que eu demorei tanto tempo pra usar? Tem coisas que os bloqueios nos impedem de acessar outros espaços, e eis um dos meus: bloqueios digitais.
Durante a caminhada percebi que: tinha que aprender o básico, até mesmo para não ficar preso aos trabalhos feitos por intermédio de um computador. Contudo, agradeço algumas pessoas que tiveram paciência – ainda têm até hoje, pois não sei muita coisa e vocês me ajudam muito ainda – de passar os comandos simples para começar a criar digitalmente. Não sou contra, só acho que não precisa ser somente esta ferramenta a responsável para criar, produzir e fazer artes.
Neste momento me encontro em outro estado, visitando o casal de amigos: Jô e Fernandinho em Aracaju, Sergipe. Trouxe o equipamento notebook, para poder trabalhar e arriscar em criar umas obras artísticas no formato digital, e tem dado certo.
Abaixo vou postar as artes que criei e, mesmo que sejam virtuais são artes e que merecem uma atenção. Desculpem se vocês observarem erros e afins, mas é isso: estou no caminho, caminhando, acertando e errando, mas estou no caminho… caminhando.